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VIDA E OBRA

Na década de 30, quando Alagoas vivia uma efervescência cultural poucas vezes vista em sua história, nascia Tânia de Maya Pedrosa, em 27 de outubro de 1933, em Maceió. Filha de Paulo de Ramalho Pedrosa, proprietário de uma fábrica de mármore e o segundo ecologista de Alagoas, e Benita Mathilde de Maya Pedrosa, professora de piano, Tânia fez o que muitas garotas de sua geração fizeram: casou-se muito cedo e, por imposição do marido, abandonou os estudos. Cursava Letras.  


Antes do casamento, quando foi morar em Capela, cidade do interior de Alagoas, Tânia construiu, ainda na infância, uma relação profunda com diversos ambientes rurais – tão diferentes quanto ricos em suas práticas culturais. Entre ilhas lagunares, sítios e fazendas dos avós, seu repertório de vivências foi se construindo. A cultura popular sempre foi um elemento central no universo particular da futura artista.


O casamento trouxe uma experiência um tanto curiosa: apesar de seu marido, Napoleão Moreira, ser filho de um proprietário de usina de açúcar em Capela, interior de Alagoas, era marxista e, portanto, tinha atividades comunistas, o que oferecia um certo risco ao casal à época. “Era comum escondermos pessoas em nossa casa. Vivíamos entre reuniões e debates com todos aqueles que, como ele, também eram comunistas. Recebíamos os maiores comunistas do Brasil, alguns deles usando disfarce”, conta Tânia.


Em 1959, nasceu Maurício. Um ano depois, veio Sérgio. Quando os filhos ainda eram crianças, Tânia separou-se do marido e ingressou no curso de Direito da Universidade Federal de Alagoas. Concluiu em 1978. Pouco tempo depois, foi ao Rio de Janeiro para cursar uma pós-graduação na área. Nunca se encontrou na advocacia. Na mesma época, passou a ter interesse por crítica de arte. Fez muitos cursos. “Eu acho que sempre fui superativa porque nunca consegui ficar parada. Mesmo em casa, não descansava, tinha sede de atividade. Fazia tapete, costurava, me dedicava à jardinagem”, diz. 


Graças à amizade muito próxima com o casal Aurélio Buarque de Holanda e Marina Baird, ia ao Rio com frequência, o que lhe colocava em contato com exposições, cursos de arte e o circuito que, um dia, faria parte de sua vida. “Eu era apaixonada pelo Rio dos anos 60 e 70”. 
Foi ainda nessa época que Tânia começou sua coleção de arte popular nordestina. Primeiro, através das andanças por Caruaru e Olinda, em Pernambuco. Depois, desbravando o Sertão de Alagoas e outras regiões. Aos poucos, de forma rigorosa e com um olhar atento, formava-se a coleção. “Posso dizer que virou uma obsessão. Tanto que, por muitos anos, eu vivia para viajar em busca de artistas populares. Muita gente dizia que era doença. Eu respondia: ‘Se for doença, quero continuar doente!’”.

OBRA - PINTURA SECRETA


Nos anos 80, numa viagem a Suíça, enquanto visitava museus e galerias de arte, feliz em ver um mundo inteiro diante de seus olhos, Tânia Pedrosa sentiu o que parecia ser um alumbramento: “Foi ali que eu vi, pela primeira vez, a minha vocação para a arte. Era aquilo, e não outra coisa, que eu procurava há tanto tempo e ainda não havia encontrado”. 


Esse encontro havia chegado num momento em que buscava transformação. “Eu tive uma visão de futuro. Enfrentava problemas financeiros, meu ex-marido havia morrido, meus filhos cresceram. Comprei duas telas, tintas e comecei a pintar silenciosamente, por muitos anos”. Cada nova obra era guardada em um quarto, sempre trancado.


Desde o começo, a artista trabalha com o imaginário do Nordeste brasileiro, inspirada pelas histórias contadas por mestres da oralidade como seu Fernando Rodrigues (1928-2009), o artista mais famoso da Ilha do Ferro, povoado de Pão de Açúcar, no Sertão de Alagoas, e pelas suas andanças através do que Ariano Suassuna chamou de “Brasil profundo”. Desde o começo, a memória de um modo de viver quase desaparecido, rural, muitas vezes mítico, está presente em sua obra.


O diálogo, expresso através de sua pintura, com personagens de todas as origens e das mais diferentes idades, classes sociais e origens é, talvez, uma das principais características da artista, herança franca das primeiras vivências, sempre em ambientes rurais. 
Em 1998, veio, enfim, o reconhecimento para um trabalho que ainda era mantido em segredo: o Prêmio Aquisição, da Bienal Naïfs do Brasil, realizada pelo Sesc São Paulo.  Na edição seguinte, em 2000, recebeu o Prêmio Destaque e, em 2006, mais uma vez, o Prêmio Aquisição. Em 2014, sua obra teve Menção Especial.


Para Tânia, a crença de que a modalidade artística naïf só pode ser desenvolvida por pessoas sem instrução, é um equívoco: “Jorge de Lima e muitos outros intelectuais eram artistas naïfs”, diz. 


Entre as características da arte naïf presentes na obra da artista alagoana estão a ausência das técnicas usuais de representação (a exemplo do uso da perspectiva), a simplificação dos elementos e a presença de temas do universo onírico. “Tenho muito orgulho que minha obra seja considerada naïf, mas gosto sempre de lembrar que o que faço é escrever com os pincéis. E por meio deles construir uma memória visual da paisagem e de um modo de vida popular brasileiros, um jeito simples de viver. Isso é o que realmente importa”. 


O mundo pintado por Tânia está, aos poucos, se apagando. A memória de povoados e de pequenas cidades do interior do Nordeste sofre os atravessamentos contemporâneos que apressam o relógio e moldam o jeito de viver. Em muitos desses lugares, a religiosidade, as festas populares e os costumes já não são os mesmos.  


Para a crítica de arte e escritora francesa Jeanine Rivais, “esse modo obsessivo de adornar cada quadro, de torná-lo luminoso, aproxima Tânia Pedrosa da art brut. Entretanto, ela pertence incontestavelmente à art naïf. Não importa afinal o rótulo: ela é autora de uma obra intensamente espiritual, calorosa, pessoal, precioso testemunho etnográfico da vida cultural no Brasil”. 
 

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